DONA Ruth, pode; DONA Marta, não pode ?

Essa é uma rapidinha, que li no blog Imprensa Marrom (aqui), simplesmente genial (os grifos, como sempre, são meus):

Os petistas dizem que Dona Marta é discriminatório e pejorativo, mas Dona Ruth podia e era até bonzinho. Já repararam?

Todo mundo sempre falava Dona Ruth numa boa, e isso nunca feria o currículo da antropóloga que foi uma das maiores intelectuais do país (talvez o Emir Sader questione isso, mas é normal, pois ele separa sujeito de predicado com vírgula).

A ex-prefeita, por sua vez, PRECISA de algum título e não aceita de forma alguma o “Dona”. É proibido chamá-la assim! Parece aquela coisa do advogado recém-formado pela faculdade porcaria que só permite ser chamado de “doutor”.

O mais engraçado é que não podemos falar “Dona Marta”, pois isso fere os brios feministas da ex-prefeita, mas, ao mesmo tempo, somos obrigados a usar o nome de seu ex-marido. É mole? Mas, enfim, já diziam por aí: quem nasceu pra lagartixa nunca chega a jacaré.

Ruth Cardoso: repercussão

O artigo a seguir foi publicado no Valor Econômico; foi escrito por Paulo Sérgio Pinheiro (Cogut Visiting Professor , Center for Latin American Studies, Brown University, EUA; foi secretário de Estado dos Direitos Humanos do governo Fernando Henrique Cardoso).

Na Sala São Paulo, onde estava sendo velado o corpo de Ruth Cardoso, o professor Antonio Candido estava discretissimamente ao lado de Fernando Henrique Cardoso. A presença do mais ilustre decano dos intelectuais brasileiros pode ser tomada como um símbolo do respeito e da importância de Ruth na universidade. Não tive o privilégio de ser seu aluno, como meu colega Sergio Adorno. Não fui seu orientando de tese, como foi Maria Filomena Gregori. No entanto, por um breve tempo, fui seu colega no Departamento de Ciência Politica da Universidade de São Paulo, para onde Ruth veio depois de muitos trabalhos em antropologia, área na qual tinha feito seu doutoramento.

A vida acadêmica, em meio à competição inevitável entre carreiras, produção e visibilidade, pode ser bastante penosa. A presença de Ruth era um bálsamo nas discussões, pelas marcas que dintinguiam sua personalidade. Quando penso nela, o que me vem à mente é serenidade, clareza, precisão e rigor. Casada com alguém que é referência mundial na ciência politica e na sociologia (há dois meses debateu-se, num seminário na Universidade Brown, o livro “Dependência e Desenvolvimento na America Latina”, de Fernando Henrique e Enzo Faletto, que completou 40 anos), Ruth sempre teve luz própria e trilhou caminho pessoal e original.

Deu uma grande contribuição aos temas relativos à mulher, especialmente no que diz respeito à discriminação, à violência e à pobreza. Na preparação da 4ª Confêrencia Mundial sobre as Mulheres, em Pequim, Ruth chamou a atenção para a “feminização da pobreza” e alertou que as mulheres comprendiam os mais pobres dos pobres. Há uma quantidade enorme de talentos entre as mulheres por causa da discriminação de que são alvo. Desde ali, e depois sempre, ela insistiu que os programas de combate à pobreza deveriam constantemente levar em conta os problemas enfrentados pelas mulheres: “O desenvolvimento não basta. O desenvolvimento deve ser acompanhado de eqüidade”.

Ruth tinha uma maneira especial de fazer esses apelos com enorme consistência, não só porque tudo era baseado em pesquisa sólida, mas também por apresentar esses pontos candentes com sobriedade e firmeza. Nela, a indignação não fazia nenhuma conexão com apelo fácil.

Foi voz forte contra a “feminização” da pobreza e na defesa do desenvolvimento completo, aquele que se pode reconhecer também na eqüidade

Poucos intelectuais têm a oportunidade de transferir para as políticas públicas sua produção acadêmica (Fernando Henrique era, com ela, uma das poucas exceções). Ruth fez essa transição de forma extremamente bem-sucedida nos programas da Comunidade Solidária (depois do final do governo Fernando Henrique, Comunitas), lançando programas altamente inovadores em termos de políticas sociais. Uma das mágicas possíveis da democracia é a possibilidade de desenvolver parcerias entre a sociedade civil e o governo, sem que aquela perca sua autonomia.

Ruth não somente desenvolveu programas de fortalecimento da sociedade civil, por meio de uma rede interativa do terceiro setor, compreendendo organizações não-governamentais e entidades sem fins lucrativos, como desenvolveu o voluntariado. Articulou todas essas iniciativas com membros de diversos ministérios e representantes da sociedade civil. Foi capaz também de chamar para a Comunidade Solidária o meio empresarial, dando contribuição decisiva para o incentivo à responsabilidade social das grandes corporacões.

Somente Ruth, pelo respeito que merecia como intelectual, mas também por sua independência de pensamento e a recusa da instrumentalização da sociedade civil pelo Estado, poderia fazer essa articulação. Ela se reinventou como mulher do presidente (evito usar a denominação usual dada à sua posição, que detestava), construindo uma via própria. Devo dizer que, por certo tempo, fiz parte do conselho da Comunidade Solidária, apenas para me referir ao privilégio de assistir a algumas reuniões que ocorriam na Granja do Torto. Com uma vasta audiência, Ruth conseguia sempre tornar os debates claros e a discusssão jamais resvalava para o burocratico ou o retórico.

Minha última visão de Ruth foi por meio de meus alunos na Universidade Brown, que dela me trasmitiram uma imagem dedicada, atenta e criativa. Ela tinha o dom de provocar o melhor que sempre há nos alunos e caminhar com eles na descoberta. Além de sua influente obra, seus artigos e seus livros, Ruth deixa a flama plantada em cada uma das inúmeras teses de doutoramento que orientou. O ritual interminável dos júris de tese, Ruth os transformava em momentos de debate intelectual.

Seria incompleto terminar este testemunho tão limitado sem lembrar da Ruth na sua família. Lembro de um anarquista italiano que criticava companheiros dizendo como eles queriam transformar o mundo se não conseguiam nem se dedicar à sua própria família. Apesar dos tantos e diversos caminhos de Ruth, e suas tantas realizações, seus filhos, Paulo Henrique, Beatriz e Luciana – e depois seus netos – sempre tiveram carinhosa prioridade ao longo de uma trajetória tão límpida. Formidável legado.

Uma homenagem merecida. Ruth Cardoso foi uma mulher que não se limitou a ser “primeira-dama”; muito pelo contrário: o papel de primeira-dama seria muito menor do que ela.

Ruth Cardoso – entrevista

Eis a entrevista concedida pela Dra. Ruth Cardoso à Revista Veja de Maio de 2004:

Veja – O presidente Lula foi criticado por dar à primeira-dama, Marisa Letícia, uma sala no Palácio do Planalto, embora ela não tenha função no governo. O que a senhora acha disso?
Ruth – O problema não é a sala. É a conduta. Ela está fazendo algum jogo que não deveria? Até agora eu não soube de nenhuma interferência. A primeira-dama não foi eleita, não recebe salário, não é parte do processo político. Apesar disso, tem um papel importante, com alguma influência. Umas têm mais, outras menos.

Veja – Por que a senhora não gostava de ser chamada de primeira-dama?
Ruth – Acho um americanismo desnecessário. Isso começou nos Estados Unidos e agora está virando moda até na França. Mas não faz parte da nossa tradição. Ninguém nunca se lembrou de chamar de primeira-dama dona Sarah Kubitschek, que ocupou espaço num governo com grande visibilidade. Lá nos Estados Unidos, tem um significado tradicional. Aqui, não. Mas, como o termo já foi introduzido, agora não adianta reclamar.

Veja – A atual primeira-dama costuma acompanhar o presidente num grande número de eventos públicos. No plano simbólico, qual é a importância disso?
Ruth – Deve haver alguma. Mas eu sempre tive mania de trabalhar. Sempre tive muita coisa para fazer. Tinha todas as minhas atividades, que me tomavam muito tempo. Precisava viajar para avaliar as ações do Comunidade Solidária. Estive presente em todas as situações em que se supunha que a presença da primeira-dama fosse importante. Mas isso tudo diminuiu muito no mundo. No início, durante as reuniões presidenciais, todas as mulheres acompanhavam o marido. Com o passar do tempo, isso mudou. O fato é que há uma diferença de estilo. Não se pode comparar Danielle Mitterrand, que tinha uma ONG na qual criticava o governo do próprio marido, com madame Chirac, que no início não tinha muita participação política, mas depois chegou a disputar uma eleição.

Veja – A vida longe do poder é menos emocionante?
Ruth – Voltamos a ter a vida que sempre tivemos. Vou ao supermercado, freqüento restaurantes, concertos, teatros. Faço tudo o que fazia antes. A idéia de que vivíamos num mundo mágico não é verdadeira. É muito agradável voltar a ter mais liberdade e privacidade. Mas eu não gosto quando se faz um corte assim. Parece que saímos do Olimpo e voltamos para o mundo real. O presidente da República não é um rei. Brasília faz parte do mundo, sim. Quando chegamos ao Palácio, sabíamos que um dia sairíamos de lá. Há um mito sobre esse assunto. Até porque o Alvorada possui uma ala privada. Tínhamos uma vida em família. Não jantávamos no salão de banquete quando estávamos apenas os dois.

Veja – Não é complicado viver em um palácio?
Ruth – É muito simples. Está tudo ordenado. Há quem organize as cerimônias, você sabe onde tem de ficar, o que precisa fazer. É verdade que às vezes é um pouco repetitivo. Mas tivemos a oportunidade de conhecer pessoas muito interessantes.

Veja – Fernando Henrique já disse, em tom de brincadeira, que sente falta apenas da piscina do Palácio da Alvorada. A senhora sente saudade de quê?
Ruth – Sabe que ele continua repetindo isso? Eu também gostava da piscina, mas não é nada que me faça falta no dia-a-dia.

Veja – A senhora, que sempre foi muito ciosa da privacidade pessoal e familiar, não acha natural que haja curiosidade popular sobre a vida dos governantes?
Ruth – Não. Essa esfera não interfere na vida pública. Defendo arduamente a distinção entre a esfera pública e a esfera privada. Lutei durante todo o tempo em que nós estivemos nessa posição pública para que se preservasse a vida privada. No Brasil, respeita-se pouquíssimo isso. A diferença entre nós e os americanos é que eles, ao elegerem um governante, acreditam piamente que estão escolhendo também o homem, o cidadão, o pai de família. Isso faz parte da mitologia americana. O Brasil não é assim. Quando uma coisa é grave, ela acaba se tornando pública naturalmente.

Veja – Em parte pelo discurso do PT, em parte pela biografia do presidente Lula, imaginava-se que a área social seria o ponto alto do atual governo, mas não é isso que vem ocorrendo. O que aconteceu?
Ruth – A pergunta deveria ser respondida pelos petistas. Foram eles que criaram uma expectativa e ainda não encontraram uma maneira de devolvê-la aos brasileiros.

Veja – Mas qual é o principal obstáculo?
Ruth – Existem algumas premissas quando se fala em política social. A primeira é parceria. Isso precisa ocorrer em todos os níveis. Com o governo, com a sociedade civil, com as universidades. A concepção do PT é estatista. Nela, o Estado tem de fazer todas as coisas. Eu já acreditei nisso no passado. No mundo contemporâneo, no entanto, a coisa não funciona assim. A visão estatista dificulta muito. Temos um arsenal de gente que conhece, que vivenciou, que tem experiências novas que precisam ser aproveitadas. A sociedade brasileira não é amorfa nem apática, como se costuma descrever. Nem o Brasil tem um número tão grande de pobres que os impeça de ser mobilizados. Minha experiência mostra que sempre que abrimos qualquer possibilidade, no lugarejo mais afastado, as pessoas respondem. O governo não pode fechar os olhos para essa realidade.

Veja – Quando o presidente Lula convoca os brasileiros a acabar com a fome, ele não está propondo justamente isso?
Ruth – O caminho é esse. A mobilização existe. A resposta é positiva. A questão é se o governo está criando parcerias. Se está aproveitando os recursos humanos que aí estão. Ou se está agindo como um grande mobilizador de uma idéia, não de um fazer. Recolher dinheiro e produtos não é parceria. Parceria é a definição de um objetivo comum. Não existe parceria sem descentralização. Está faltando combinar isso. Hoje, falta um diálogo no qual os parceiros tenham igual possibilidade de interferência. Falta avaliação, falta prestação de contas, faltam objetivos comuns. Não pode existir fórmula pronta. Políticas assistencialistas não têm diminuído a pobreza.

Veja – A política social de Lula é assistencialista?
Ruth – O Fome Zero, que foi o que apareceu no começo do governo, era extremamente assistencialista. Distribuir alimentos não sustenta o desenvolvimento de ninguém. Mas depois houve algumas mudanças. Não tenho informações detalhadas para avaliar. Aliás, acho que faltam informações para todos os brasileiros. Informações sobre como essas ações estão se desenvolvendo. Hoje, não tenho como avaliar, embora ache que deveria ter. Até porque é preciso avaliar os programas enquanto eles estão sendo desenvolvidos. Não adianta, no fim de um programa, dizer se ele foi ruim ou bom.

Veja – Existe um problema de gestão na área social do governo ou houve apenas uma expectativa exagerada por se tratar de um governo do PT?
Ruth – A expectativa não pode ser usada para explicar tudo. Agora, até a economia se aproximou da psicologia. Tudo na economia agora virou questão de expectativa. Veja que, com relação à política econômica, havia uma expectativa negativa em relação ao PT. Mas os petistas tiveram a visão necessária para perceber que o Brasil não pode viver isolado. Por isso, ainda que tivessem um discurso diferente, mantiveram o rumo adotado no governo passado. No caso das políticas sociais, talvez eles ainda estejam reexaminando a questão, adaptando-se à realidade. Não é fácil governar. O PT já aprendeu bastante e ainda está aprendendo muito. Eu gostaria de uma definição mais clara sobre a maneira de fazer as coisas. Há pessoas muito preparadas no PT, mas há problemas.

Veja – Que problemas?
Ruth – Eles estão partidarizando demais a máquina pública. Isso é criticável. É muito grave. É claro que o partido precisa dar o rumo do governo. Mas na Europa, por exemplo, a burocracia pública é muito enraizada. E muito consciente de seus deveres. Há um controle para que as pessoas possam saber se ela age com o rigor e a independência necessários. Isso é fundamental para o desenvolvimento democrático de um país. No Brasil, porém, o PT partidarizou a burocracia além do limite.

Veja – Na última década, sobretudo durante o governo de Fernando Henrique, passou-se a gastar mais com os pobres e surgiu uma grande variedade de programas descentralizados. Mas nada disso reduziu a desigualdade. Por quê?
Ruth – A desigualdade está aumentando no mundo todo. No Brasil, já era imensa, inaceitável. Precisamos reduzi-la, não há dúvida. Mas essa meta não pode ser alcançada rapidamente. Até porque, se existe uma herança maldita, é a desigualdade de cinco séculos. Não podemos medir isso de um ano para o outro. A melhor maneira de combater a desigualdade é a educação. Mas para aumentar a escolaridade média da população brasileira, que é imensa, leva-se dez anos.

Veja – Com os dois mandatos de seu marido, a senhora está entre as primeiras-damas mais longevas do país. Qual o papel de uma primeira-dama?
Ruth – Primeira-dama é um ser humano, não é uma Barbie. Não podemos ter um modelito que sirva para todo mundo. Assim como não existe modelo para presidente, não pode existir modelo para primeira-dama. Cada uma desenvolve o trabalho para o qual se sente mais apta.

Veja – Uma primeira-dama desfruta uma posição privilegiada para influir em decisões do presidente da República, não?
Ruth – Eu não tinha poder algum. Não fui eleita para nada, como qualquer primeira-dama. Tinha apenas uma posição privilegiada para conseguir apoios e firmar parcerias na área social. Sempre me mantive totalmente afastada do governo. Nunca participei de reunião com ministro nem com ninguém da área governamental. Aliás, há exemplos de crises conjugais muito sérias por causa disso. Basta lembrar o ex-presidente da Argentina Carlos Menem e o ex-presidente do Peru Alberto Fujimori, cujas mulheres, em algum momento, tentaram interferir politicamente. Aí dá problema.

Veja – A senhora discutia sobre o governo com seu marido?
Ruth – Muito pouco. Tínhamos tão pouco tempo juntos que esse não era o nosso tema preferido. Ele me contava sobre suas dificuldades e idéias, mas eu nunca tive interferência no governo. Quando havia coisas que eu sabia, porque tinha estudado, dava minhas opiniões. Mas governar não é levar em conta a opinião da mulher nem a do assessor. As avaliações e as escolhas são muito mais complexas. É por isso que governar é tão difícil.

Veja – O que a senhora acha da possibilidade de seu marido se candidatar ao Palácio do Planalto em 2006?
Ruth – É um problema dele, mas acredito na resposta que ele vem dando quando é perguntado sobre o assunto. Primeiro, que essas coisas não são definidas de antemão. Depois, que ele acha que já deu sua contribuição e que agora é a vez de outras pessoas. Um dos grandes problemas do país é a dificuldade de criar novas lideranças. Isso acontece em todos os partidos. O fato de um ex-presidente dar uma opinião já o transforma em candidato. Tudo vira um jogo eleitoral.

Veja – A senhora já pensou em disputar uma eleição?
Ruth – Não. Estou contente com o que já fiz. Sempre participei ativamente, com posições claras. O que eu sei fazer melhor é fazer as coisas acontecerem.

Veja – É uma crítica aos políticos?
Ruth – Não. Só acho que não estou apta a fazer política partidária, assim como os políticos não estão aptos a fazer o que eu faço.

Ruth Cardoso

Ainda estou inconformado com a morte de Ruth Cardoso.Inexplicavelmente, diga-se…..

Sempre a admirei por sua discrição, inteligência, postura séria etc. Contudo, jamais a conheci (vi uma palestra dela, mas a uma considerável distância), exceto ao ler artigos e entrevistas dela. Mas ainda assim, tinha profunda admiração.

Alguns textos publicados após sua morte, entretanto, merecem a leitura. Talvez eles ajudem a explicar aquilo que eu mesmo não consigo….

ELIANE CANTANHÊDE

Ruth Cardoso

BRASÍLIA – Há alguns anos, ainda no primeiro mandato de FHC, o então ministro José Serra me descreveu a antropóloga Ruth Cardoso como “uma mulher admirável, com uma inteligência superior”.
Poder-se-ia descontar a antiga amizade de Serra com o casal Cardoso, consolidada nos anos de exílio no Chile, não fossem os elogios a Ruth uma constante entre todos os que conviviam com mais ou com menos intensidade com ela.
Com sua morte, personagens como Pedro Malan, Paulo Renato e Clóvis Carvalho desfilaram adjetivos para enaltecer a mulher inteligente, culta e discreta. Mas não foi a oportunidade, foi o que eles disseram sempre, na Presidência de FHC e depois. Com a concordância de muita gente, do DEM ao PT.
Ruth Cardoso detestava o título de primeira-dama e não gostava de jornalistas. Nos oito anos de mandato, eu poderia contar nos dedos as vezes em que a vi pessoalmente, e só falei com ela, diretamente, uma vez -sobre questões de gênero.
Ao entrevistar FHC no antigo apartamento dele da rua Maranhão, encontrei um ambiente acolhedor, sóbrio, com cadeiras confortáveis e objetos colhidos de viagens a diferentes regiões do mundo. Um típico apartamento de professores universitários com boa vivência no exterior, sem luxos desnecessários, sem traços de novo-riquismo. Ruth não estava, mas a casa era a cara dela.
Com a elegância que só as pessoas discretas têm, Ruth Cardoso também era profundamente orgulhosa da sua independência, sobretudo intelectual, de um marido tão esfuziante e com tanto poder. Jamais se ouviu dizer de sua interferência num programa de governo, numa decisão do Planalto, num movimento político do presidente.
O poder corrompe e deforma, mas Ruth Cardoso entrou e saiu dele com a mesma cara, o mesmo trajar, a mesma discrição e o mesmo respeito por ela própria. Como disse Serra, uma mulher admirável.

CLÓVIS ROSSI

Ruth e a “soberania”

SÃO PAULO – O melhor resumo-homenagem a Ruth Cardoso está na carta da dramaturga Consuelo de Castro, publicada pelo “Painel do Leitor”. Fala das aulas de antropologia e política dessa notável intelectual e fala, “sobretudo, do seu jeito soberano de encarar a vida”. A própria Ruth reforçou esse “jeito soberano” de ser em uma frase que a Folha pinçou como uma espécie de legenda para a foto dela.
Dizia: “Se tiver idéia diferente, eu expresso. Não tenho a mesma posição política só por ser casada”. Num país em que há, ainda, o primitivo raciocínio que faz da mulher mera extensão do homem (ou vice-versa, em tempos mais modernos), é todo um manifesto de soberania. Dupla soberania: a de pensar com a própria cabeça e a de não ajustar convicções a conveniências.
No plano micro, ultramicro, coube-me testemunhar uma cena explícita de “soberania”. No início do governo Fernando Henrique Cardoso, em 1995, ele, a mulher e a comitiva de praxe fizeram visita oficial à Bélgica, que incluiu palestra no Colégio da Europa, em Bruges. Foi a primeira cidade, quando era Estado independente, a adotar a renda mínima, no remoto século 16 (exatamente 1526).
O casal visitou um museu, como procurava fazer sempre que possível. Pararam ante um quadro que mostrava um camponês recebendo um pão. FHC comentou: “Olha aí a renda mínima”. Ruth, com seu jeitão despachado, fulminou: “Que renda mínima, isso é assistencialismo puro”. O presidente calou-se, e a visita seguiu.
Passaram-se 13 anos, dois mandatos de FHC e um e meio de Lula, talvez os dois governantes de mais sensibilidade social entre todos os presidentes, tanto que construíram um embrião de rede de proteção social.
Dói, no entanto, que Ruth Cardoso não tenha sobrevivido para ver quebrado o assistencialismo.